Crônica | Por Luiz Taques | 23/07/2019 14h14

Assim, Gretchen

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No show de Corumbá, Gretchen arrasou corações. No show de Corumbá, Gretchen arrasou corações. (Foto: (Ilustração: Acir Alves))

Assim, Gretchen

Ganhando a vida com suas artes: ela, no papel de Rainha do Bumbum; ele, no Bozó, como um exímio jogador 

Por Luiz Taques

– E Psicanalítico?

O bar Rubro-Negro estava lotado; porém, lá, ele não se encontrava, não.
Sem disfarçar a impaciência, Flamenguista, o dono do bar, insistia em querer saber:
– Por onde andará Psicanalítico?
Não se sabe de quem partiu o dito espirituoso:
– Engomando a beca pro show da Gretchen.
Flamenguista não deixou a alma esmorecer:
– Desse modo, você estraga a minha surpresa.

Demora de Psicanalítico preocupava Flamenguista.

Era sexta-feira, dia dez.
Dia de pagamento.
Fregueses loucos pra jogar Bozó.

Seis da tarde.
Enfim, Psicanalítico apareceu no bar.
Logo, a roda foi se formando, ao redor dele.
Bancário da Caixa Econômica acabou sendo o primeiro a se aproximar; educado, pediu licença pra se sentar.
A esse bancário, que puxou o banquinho e se sentou, juntaram-se um funcionário da livraria Lemos; um balconista da Casas Buri; um manobrista da mineradora Urucum e um taxista do ponto da Treze de Junho com a Frei Mariano.

Boteco cheio, lucro à vista, Flamenguista soltou um largo sorriso.

Show de Gretchen começaria à meia-noite, no Riachuelo.
O clube se localizava a poucas quadras do Rubro-Negro.
A música “Freak le boom boom” liderava todas as paradas de sucesso.
Varões estavam eufóricos – damas, de biquinho virado.
Na cidade, só se falava no rebolado frenético e provocante da cantora.

No jogo de Bozó, Psicanalítico reinava absoluto.
Ex-calouro do curso de Geografia da Universidade Federal/Unidade Pantanal, ele vencia todas as paradas.
O bancário da Caixa Econômica foi o primeiro a pedir arrego.
Mas, antes de tirar o time de campo, indagou:
– De qual mente iluminada, escapuliu esse apelido?
Flamenguista escutou aquilo, puxou o bancário e o levou pro balcão, pra Psicanalítico não perder o foco na partida:
– O seu apelido era Cabecinha, e, por ser fumante compulsivo, andar de bengala, ter barba bem feita, leve calvície e, no Bozó, extraordinária capacidade de concentração, levaram, certo dia, um bacana a associar a figura dele à de Sigmund Freud.
Flamenguista nem precisou se estender muito: o restante do fuxico já era de domínio público. Desde aquela fatídica tarde, no Rubro-Negro, Cabecinha passou a ser chamado de Psicanalítico.
Em Corumbá, o apelido pegou.
Contam que, pra tentar se livrar da alcunha, Cabecinha chegou a ir a terreiro; no entanto, a mãe de santo Cacilda nada pôde fazer.
Ao tomar conhecimento que a macumba não surtira efeito, o tal bacana aconselhara Psicanalítico a relaxar, e se conformar:
– Ô, meu chapa, Freud não extraía pensamentos libidinosos de seus pacientes, sem estar fumando charuto e cobrando uma grana preta, enquanto você, na mesa de um bar, pra jogar Bozó, não se senta se não estiver tragando um cigarrinho e faturando uns bons tostões.

De fato, Bozó, Psicanalítico jogava a dinheiro.
E sozinho; em dupla, jamais. Cada rodada pode ter seis jogadores, no máximo.
Valor da aposta, combinado previamente, era de praxe.
Aos perdedores, Flamenguista apresentava as despesas com bebidas (cervejas, caipirinhas, doses de conhaque) e com porções de frango a passarinho ou de contrafilé. O vencedor, não metia a mão no bolso.

Jogo de sorte, cautela e tática, pode-se lançar, no Bozó, os dados três vezes. Eles são colocados num copo. O jogador chacoalha o copo, que, geralmente, é de couro, e, então, vira-o, sobre a mesa. De olho nas casas do tabuleiro, ele vai encaminhando o seu jogo, conforme a numeração estampada nas faces dos dados. Ás vale 1; Duque, 2; Terno, 3; Quadra, 4; Quina, 5 e Sena, 6. Há, ainda, Full; Seguida; Quadrada e General. Ao pontuar Full (duas faces iguais, mais três faces iguais), ganham-se 20 pontos. Seguida (1, 2, 3, 4, 5 ou 2, 3, 4, 5, 6), 30 pontos. Quadrada (quatro faces iguais), 40 pontos, e General (cinco faces iguais), 50 pontos. Se, numa tentativa, der “Boca”, ou seja, se o jogador conseguiu fazer Full, Seguida ou Quadrada, ele ganha cinco pontos a mais.

Com General de “Boca”, o jogador liquida a partida – exceto isso, ela somente se encerra no momento em que todas as casas do tabuleiro estiverem preenchidas. Neste caso, ganha o jogador que obtiver a maior pontuação.

Já passava das onze horas, quando mais um grupo sentou-se à mesa, redonda, pra jogar Bozó com Psicanalítico. Desta vez, o grupo era formado por apenas um trio: um relojoeiro longevo, um sargento da Marinha e um servidor da Receita Estadual.
Os quatros jogavam empolgados. Por isso, nem perceberam que Flamenguista solicitara a atenção de todos. Ele queria anunciar a surpresa da noite: o sorteio de uma mesa pro show de Gretchen, a Rainha do Bumbum.
Adivinha o sortudo?
Sim, ele mesmo: o relojoeiro.
Arrastou Psicanalítico, como convidado, e mais o dono de um bar de sinuca dali da Sete de Setembro com a Dom Aquino, que, naquele horário, bebericava no Rubro-Negro.
Numa pastinha, o relojoeiro carregava diversos óculos de grau (óculos com lentes pra perto; óculos com lentes pra longe; óculos bifocais: lentes pra perto e pra longe; além de óculos escuros, que eram pra ele se proteger, durante o dia, do sol forte que faz na fronteira oeste brasileira).
As duas arquibancadas laterais de cimento do Riachuelo estavam apinhadas de gente. Em frente ao palco, os organizadores ergueram uma passarela. A mesa fornecida pelo Flamenguista ficava ao final da passarela – dificilmente, Gretchen iria lá.

Meia-noite e pouco, a estrela surgiu no palco, cantando: “Boom boom, freak le boom boom...”.
Gretchen cantava e requebrava ao som de “Only you, you better all, I shake it up, cause awh!”

O relojoeiro abriu a sua pastinha, retirou os óculos; deixou-os em cima da mesa. Colocava um tipo de óculos, olhava pra ela, tirava; colocava outros óculos, olhava pra ela, tirava, novamente...
Gretchen deve ter reparado naquela cena envolvente, naquele olhar que parecia querer penetrar em toda a sensualidade dela.

Das arquibancadas e das cadeiras, imploravam: rebola, meu amor, rebola aqui, juntinho de mim...
Psicanalítico era um dos que não se continham:
– Venha, venha, venha assim, Gretchen!

Aos acenos incessantes, calorosos, Gretchen retribuía com repertório dançarino mais ousado ainda.

Então, ela entrou na passarela, foi cantando, dançando, cantando, dançando...
Até chegar à mesa do relojoeiro e de seus convidados.
Gretchen se apoiou num corrimão, pra descer da passarela, e aí sentou-se, artisticamente, no colo do relojoeiro.
Com o encantamento que Deus lhe deu, por uns eternos segundos, ela rebolou, com o seu invejado bumbum, um rebolado especial, numa exibição exclusiva àquele privilegiado fã.
A plateia, em transe, aplaudia, assobiava!
E Gretchen, preocupada com a sua performance, nem notou a presença de Psicanalítico.
Que, tomado de assombro, a derrota, de imediato, ele tratou de reconhecer.
Talvez, por perceber que, ali, naquele instante, no jogo mágico da sedução, o relojoeiro era o grande vencedor.

Esta crónica es dedicada a Dary Jr, un músico de talento, nacido en la encantadora Ciudad Blanca.

Luiz Taques é autor dos volumes de contos “O casamento vai acabar com o poeta” (editora Casa Amarela, 2002); “Bebinho, Mamadinho e o velório de Bafo de Alho” (editora Letradágua, 2008) e do romance “Pedro” (editora Kan, 2013).

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