Crônica | Luiz Taques | 21/08/2019 09h51

Flagrante, em dó maior

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(Ilustração: Acir Alves) (Ilustração: Acir Alves)

Flagrante, em dó maior

O caso do saxofonista obcecado por uma bela intérprete da MPB

Por Luiz Taques

De noite, o saxofonista rondava a região portuária e a área central da Cidade Branca.
Nas últimas semanas, à procura da cantora de voz adocicada.
Quando a encontrava, em algum bar, sentava-se próximo ao palco.
Como de hábito, escolhia um ângulo perfeito a fim de poder paquerá-la.
À mesa, passava o tempo em companhia de cerveja bem geladinha.
Em cada nova canção romântica, insinuava-se àquela jovem de lábios carnudos.
Vendo a elegância com que ela concebeu a “Fullgás”, sucesso de Marina Lima (“... só vou te contar um segredo/ não nada/ nada de mal nos alcança/ pois tendo você/ meu brinquedo/ nada machuca/ nem cansa...”), ele se comovia. Levantava-se; aplaudia, com fervor. Achava que a exibição conferia beleza extra àquela melodia.
Nos intervalos do show, o saxofonista se aproximava; com olhar sedutor, dava em cima da atraente cantora. Porém, notava-se que não havia reciprocidade.
Estrelas levam muitas cantadas – com charme, dão um jeito de dizer não.
Mesmo assim, o saxofonista fingia ignorar que a moça não lhe dava bola. Do bar, de olho nela, ele só arredava o pé madrugada adentro, naqueles momentos derradeiros, em que, do violão, choravam os últimos acordes.
Há quem diga que ele voltava para casa frustrado e um pouquinho envelhecido de desgosto.

O saxofonista era comprometido.
À noiva, professorinha primária, alegava cansaço, ao se despedir na portaria do prédio, dizendo que iria dormir; chegava a encenar bocejos.
Sentimento manipulado, a noiva caía nas desculpas inconsistentes, deslocadas.
Livre, ele colocava, dentro do carro, a aliança no bolso, antes de percorrer a badalada noite da Cidade Branca.

Pelos mais chegados, foi-lhe sugerido desistir da investida duradoura à cantora de voz adocicada; ele, no entanto, desprezou o conselho.
Argumentou que, com o saxofone, desenvolveu a habilidade de posicionar o instrumento na boca, de modo a não se ferir com facilidade, e, também, a arte mais difícil: ter paciência. Até garantiu que, mais cedo ou mais tarde, transaria com a mina, ao luar, numa das prainhas de águas cristalinas existentes naquela região fronteiriça.
O ganha-pão do saxofonista não vinha da labuta com a música, e, sim, de uma sinecura na prestigiada Secretaria de Finanças. No entanto, ao ser solicitado pela chefia, dava canjas primorosas em alguns espetáculos restritos. Daí, a sua fama de saxofonista elitista – e, à boca pequena, de conquistador barato.

Nos barzinhos, a cantora de voz adocicada se apresentava acompanhada de um violonista de primeiríssima grandeza artística.

Fora do palco, o violonista se revelava um homem tímido; expressava-se, nos papos informais, com tom de voz muito baixo. O interlocutor, em inúmeras oportunidades, precisava inclinar a cabeça, posicionar o ouvido, se quisesse escutar o que ele estava dizendo.

Seu humor, sensacional, compensava o esforço auditivo:
– Qualquer dia, o gostosão irá quebrar a fuça!

Profético?

Ao acabar de dizer isso, o saxofonista entrou no bar.

Pela primeira vez, o músico, de fala baixa, alterou a voz:
– Ih, o flagrante, moçada, será hoje, e em dó maior!

Então, ele e alguns rapazes, a passos largos, foram para o fundo do bar.

Todos que frequentavam o pedaço, sabiam, naturalmente, que a cantora de voz adocicada se encontrava lá.

Mas, aquele grupinho, curioso, queria mesmo era ver a cara do saxofonista.
Ao se deparar com a gata de seu interesse.
Trocando carícias e juras eternas de amor com a namorada.

Luiz Taques dedica este conto a Ana Cláudia Salomão, leitora de Machado de Assis, afinada com o coro “Lula Livre”. Nascido em Corumbá (MS) e residindo em Londrina (PR), Taques é autor, em parceria com o repórter José Maschio, do livro-reportagem “Crônica de uma grande farsa” (Editora Kan, 2013).

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