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Entrevista | Júlia de Freitas | 02/05/2014 09h35

Everson Tavares

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Everson Tavares

Campo Grande (MS) - Everson Tavares, é de Bandeirantes (MS) e mora há 12 anos na capital. Formado em Comunicação Social (Habilitação em Jornalismo) pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Everson é fotógrafo freelancer e desenvolve projetos na cena audiovisual independente. Atualmente, trabalha com jornalismo ambiental no Instituto Mamirauá, em Tefé (AM).

EG - Defina o que você entende por fotografia

Por conceito, é a arte de escrever com luz. Mas isso é muito técnico. Se for para definir um termo que me inspire, tenho que parafrasear o Jorge Luis Borges na abertura do Livro Ensaios Fotográficos do Manoel de Barros e dizer que “fotografias são incontinências do visual”.

EG - Há quanto tempo você percebeu a inclinação pela fotografia e quando decidiu levar esta arte como profissão?

Desde criança eu brincava dizendo que seria fotógrafo da playboy. Mas só por malandragem. Ganhei uma câmera com uns 11 anos, de filme. Mas meu pai tinha uma câmera profissional antiga que todo mundo em casa amava. Ela nem funcionava, mas era muito bonita. Com uns 17 anos sai de um emprego e resolve investir em alguma coisa. Na época, o fotógrafo Giovani Neves era meu chefe escoteiro e me disse que se eu comprasse uma câmera ele me ensinaria a fotografar.
Desde então resolvi estudar a linguagem. Mas só considerei uma profissão quando eu estava com uns 20 anos e já tinha uma bagagem interessante.

EG - Além da fotografia, você realiza trabalhos na área do audiovisual. Depois do seu web documentário “Tekohá – Os filhos da Terra” ganhar uma repercussão positiva na mídia e com o público de Campo Grande, como você define o jornalismo como instrumento de contribuição para as causas sociais, como no caso, os índigenas do Mato Grosso do Sul?

Acho que o jornalismo tem um potencial gigantesco para gerar conhecimento e assim interferir na sociedade. É o que as teorias chamam de Ações Comunicativas. Desenvolvi o webdocumentário pensando nisso – principalmente porque vejo documentários como parte da tarefa de jornalistas. Mas a mídia corporativa presta um desserviço na maioria das causas sociais. Indígenas, por exemplo, são criminalizados pela maioria dos meios de comunicação empresariais, especialmente em Mato Grosso do Sul. Isso não sou eu quem diz, a própria UFMS tem uma série de pesquisas sobre isso – o trabalho de graduação do Rafael de Abreu é um exemplo. Meu webdocumentário, o Tekohá, é outro exemplo. Só virou pauta depois que foi disputar o Festival 5 Minutos na Bahia. A notícia não era sobre os problemas sociais dos povos representados, era MS ter um representante no Festival. Não há como culpar os jornalistas, fico feliz por terem me dado um espaço legal e contribuído indiretamente para as ações comunicativas. Mas a política macroeconômica de Mato Grosso do Sul interfere muito no trabalho da imprensa. Não digo que é impossível, o Roberto Higa defende causas sociais há 40 anos. Mas falta posicionamento crítico da maioria dos novos jornalistas. Felizmente tem alguns colegas que volta e meia emplacam uma matéria contra essa correnteza.

EG - De que maneira você vê o incentivo à produção audiovisual independente no estado?

Que incentivo de produção independente? Os editais daqui são abertos para todas as linguagens, inclusive o cinema. A exceção é o edital do MIS – mas teve problemas e acabou travado. O pouco que tem vai para uns roteiros que não sei como emplacam. Outro dia vi um filme financiado pelo FIC. Fiquei com vergonha de ter levado uma amiga que não faz parte do eixo cultural e detestou. Mas tenho esperança, o Mitã do Alexandre Basso e da Lia Mattos está muito bom. O Copetti está com um filme bem promissor que eu queria ver. Tem também o Cadu Fluhr com um trabalho interessante. Mas todo mundo tirando leite de pedra com orçamento inacreditável. A Zorzo disse que vai investir em cinema. Vamos ver, né? O pessoal fala muito de cinema e desconsidera outras formas do audiovisual, como o webdocumentário por exemplo. Vamos rezar... (risos).

EG - Fale um pouco sobre o projeto do qual você faz parte, “Memórias do Futuro”.

O Memórias do Futuro foi o projeto mais sensacional que participei. O Espaço Imaginário é muito ligado nos cenário contemporâneo de produção e quando o projeto eclodiu já tinha uns seis anos de pesquisas em cima da infância e do audiovisual. As crianças, adolescentes e educadores capacitadas pelo projeto produziram o maior acervo sobre cultura da infância do Mato Grosso do Sul e os cenários são regiões onde o cinema convencional não consegue ir, como aldeias e comunidades ribeirinhas. Para mim foi uma escola a parte. Encontrei a pesquisa sobre webdocumentário com a Jamile Fortunado no Memórias. A Lia Mattos e o Ale Basso me ensinaram muita coisa, e, principalmente as crianças. Mas o projeto despertou mais interesse na comunidade nacional e internacional do que na própria região. Tenho uma amiga indiana colecionadora de jogos tradicionais que é fascinada. Mas falta investimento regional.

EG - Quais são suas inspirações e você tem projetos novos em mente?

Quero muito desenvolver pesquisas relacionando o audiovisual e a educação. Mas acho que o cinema é uma ponte, não um fim. Uma rápida olhada no cenário econômico para perceber que o tempo do grande cinema já foi – produções independentes vão se fortalecer mas não da para pensar como os cineastas tradicionais. Meu projeto é ir para o game. O cinema foi para o game, o jornalismo está indo para lá também e a gamificação trouxe a educação para as salas de aula. Mas infelizmente Campo Grande tem pouca pesquisa e incentivo nessa área. Por enquanto estou deixando a cidade para trabalhar com jornalismo ambiental no Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, no Amazonas. Mas mantenho uma base com um colega de TI, o João Pedro Rodrigues, que está desenvolvendo uma pesquisa sobre games. Vamos trabalhando no mercado indie enquanto o Brasil não resolve investir nesse segmento.

A série “Tekohá – os filhos da terra”, webdocumentário de Everson, está entre os 50 trabalhos selecionados para a mostra competitiva do 16ª Festival Nacional 5 Minutos, realizado pela Funceb e pela a Fundação Cultural da Bahia. Para assistir ao webdocumentário, clique aqui.


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