Indígena | Jeozadaque | 16/12/2011 11h05

Lavagem de escadaria não terá missa na Igreja Matriz

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Quem já estava acostumado desde 2002 a presenciar, a cada 30 de dezembro, os adeptos do candomblé nas primeiras fileiras da Igreja Matriz Nossa Senhora da Candelária, em Corumbá, durante a missa que celebrava o ano que se encerrava e pedia proteção para o que começava, não verá mais essa cena a não ser em registros de imagens de anos anteriores. Uma orientação da Diocese de Corumbá não permite mais esse tipo de celebração em nenhuma igreja católica da cidade. Foi o que afirmou em entrevista ao Diário, o bispo diocesano Dom Martinez Alavarez. Segundo ele, a decisão foi tomada com base em uma consulta realizada com fiéis da Igreja Matriz que são contrários à celebração, que tem por característica abrir as portas do espaço religioso para os adeptos das religiões de matrizes africanas. De acordo com a autoridade eclesiástica local, a decisão baseia-se numa questão teológica que envolve as duas religiões. Ainda segundo Dom Martinez, a também já tradicional lavagem das escadarias da igreja poderá ser realizada, mas de um jeito diferente: com as portas fechadas. "Os fiéis foram de opinião contrária não à lavagem das escadarias, que podem continuar lavando não somente dia 30, mas quando quiserem. Mas à participação simultânea da eucaristia, a comunidade é contrária. Por quê? Muito simples, a eucaristia é comunhão profunda entre aqueles que lá estão presentes com Cristo. Agora, com as religiões de cunho africano, a comunhão conosco não chegou ao ponto de compartir a eucaristia. Não é que haja animosidade, em absoluto, mas nosso nível de comunhão ainda não é tão profundo para podermos compartir a eucaristia que, para nós, é momento de comunhão mais profundo dentro da igreja católica", explicou. Dom Martinez foi firme em dizer que a orientação é válida para todas as paróquias e não somente para este ano, e que deve ser encarada para toda decisão daqui para frente. Questionado pela reportagem se poderia haver uma possibilidade de a orientação ser desfeita, ele foi enfático e disse que não. "Não vai ser alterado, a Prefeitura já está informada sobre isso, a Secretaria de Turismo já foi informada. A escadaria continua lá, mas a Catedral estará fechada, estará de portas fechadas na hora da lavagem", reforçou. A notícia pegou de surpresa o babalorixá Zazelakum, Clemílson Pereira Medina, que realiza desde 2002, o ritual da lavagem das escadarias da Igreja de Nossa Senhora da Candelária. Ele, que estava em viagem com destino à Brasília, conversou com a reportagem deste Diário e classificou a atitude como um retrocesso. "Viemos nesses anos num trabalho que busca unificar as religiões com o propósito comum de buscar a Deus e, principalmente, nessa época do ano quando todos estamos falando em união, nós não esperávamos por isso", declarou o babalorixá que é presidente da Acorema (Associação Corumbaense das Religiões de Matrizes Africanas do Pantanal e Região) e também delegado das religiões de matrizes sul-africanas do Centro-Oeste. Ele ressaltou ainda que a realização da missa e da lavagem da escadaria ao longo de quase 10 anos, colocaram Corumbá em destaque nacional. "Nossa cidade era vista como um exemplo de comunhão entre as religiões, recebia elogios não somente aqui no Estado, mas no país, já que somos depois de Salvador (capital baiana), a única cidade a realizar esses rituais. Quem não tinha oportunidade de ir à Bahia, vinha para Corumbá, ver e participar desses momentos dentro e fora da igreja", afirmou o religioso. O babalorixá Zazelakum retorna dia 20 para a cidade quando deve convocar uma reunião com os adeptos do candomblé para discutir como irão atuar nos rituais este ano, porém afirmou que, mesmo com as portas da igreja Matriz fechadas, os religiosos irão lavar as escadarias. Apesar da posição já definida pela Diocese de Corumbá, o babalorixá pede que as autoridades religiosas católicas, tenham "sensibilidade para a questão que, hoje, já agregou outros pontos relevantes como, por exemplo, ter entrado para o calendário de eventos da cidade". Na Bahia Os estudiosos de mitologia negra dizem que a Lavagem do Bonfim é uma cerimônia que tem origem na África, em homenagem à divindade yorubá Oxalá, entretanto há controvérsia em relação à origem religiosa da festa. Câmara Cascudo acha que na Festa do Bonfim há convergência de dezenas de festas tradicionais da Europa e da África. Roger Bastide observa que a cerimônia não é de origem africana, pois já existia em Portugal. Teria sido difundida no Brasil por um português combatente na Guerra do Paraguai que fizera o voto de, caso não morresse, lavar o átrio do Senhor do Bonfim. Os negros baianos transformaram a lavagem em uma festa sincrética ao catolicismo e ao candomblé. Pelo fato de ultrapassar os limites da liturgia católica, a Lavagem do Bonfim chegou a ser proibida pelo Arcebispo da Bahia e impedida de ser realizada pela Força Pública de Salvador no ano de 1890. As baianas então começaram a lavar as escadarias com água de cheiro como símbolo da purificação da igreja. No candomblé, o Senhor do Bonfim é sincretizado com Oxalá. O branco, de uso quase obrigatório na Lavagem, é uma menção direta ao pai de todos os orixás. Da Redação/Com Diarionline

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