Cinema | Com Observatório do Cinema | 10/08/2026 15h03

A Casa do Dragão – Crítica: 8º episódio é grandioso, brutal e frustrante

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Existe uma versão de A Casa do Dragão que seria uma das melhores séries de fantasia política já feitas. O final de A Casa do Dragão mostra essa versão por uns bons quarenta minutos e depois, no pior momento possível, passa o bastão para a única ideia que nunca colou nesta história: a profecia.

É frustrante justamente porque o episódio prova, cena após cena, que a série não precisa dessa muleta para ser grandiosa. Ela só não parece acreditar nisso.

A Casa do Dragão
A batalha que a série sempre prometeu

Vamos ao que funciona, porque é muito. A Batalha de Tumbleton é, disparado, o melhor combate que A Casa do Dragão já colocou na tela. Depois de três temporadas se trancando em corredores apertados e quartos sussurrantes, a série finalmente abriu as portas e olhou para o horizonte.

A carga dos homens do Norte, o aríete substituído por Caraxes cuspindo fogo no portão, o óleo fervendo sobre quem escala as muralhas, Daemon quase morrendo para Jon Roxton e sendo salvo por um desabamento na hora certa; é cinema de guerra de primeira linha, com escala e peso que a série vinha economizando desde o piloto.

Mais do que bonito, é um combate que significa alguma coisa. Ninguém sai limpo de Tumbleton. A vitória vira massacre, o massacre respinga em quem mandou atacar, e a câmera tem a decência de parar nos rostos das mães carregando os mortos. Quando a série quer, ela sabe exatamente o que está fazendo.

O vício da profecia

E então Rhaenyra sobe num caixote. De armadura e coroa, diante do povo de Porto Real, ela declara em alto valiriano ser “o príncipe que foi prometido”, e até os próprios apoiadores se entreolham constrangidos. O problema não é a atuação; é o roteiro escolher, no clímax da temporada, apostar todas as fichas no elemento mais fraco da série.

A Dança dos Dragões nunca precisou de destino místico. É uma história sobre uma mulher a quem prometeram uma coroa e que assiste ao mundo negá-la só porque ela é mulher; e sobre homens que preferem um rei fraco a uma rainha capaz.

Isso é mais sujo, mais humano e mais trágico do que qualquer “canção de gelo e fogo”. Toda vez que a série puxa a profecia, ela troca tragédia política por fantasia barata. Fazer isso em praça pública, gritando para uma multidão que claramente não comprou, é a série sabotando o próprio melhor material.

Rhaenyra: a vilã que a série tem medo de assumir
O arco de Rhaenyra é o que a temporada tem de mais forte e também o que mais expõe a covardia do roteiro. Ela força a alimentação da meia-irmã, manda executar o Alto Septão e exila Mysaria, a mestra dos sussurros.

Esse último, aliás, é um erro de estratégia tão grande que quase dói: ninguém simplesmente deixa a dona de todos os segredos sair andando pelo portão. É pedir para ser traído, e a série sabe disso, Mysaria mal vira as costas e já está plantando a semente da próxima tragédia.

Emma D’Arcy está magnífica nessa descida. O problema é que o texto insiste em deixar a personagem chorosa, hesitante, ainda pedindo que a gente a ame. A Rhaenyra dos livros é mais fria, mais implacável e, por isso mesmo, mais trágica.

A série quer a monstruosidade e o carinho ao mesmo tempo, e no meio-termo a rainha corre o risco de parecer apenas desagradável, quando deveria ser devastadora. Ou se compromete com a vilania, ou não; esse pé atrás enfraquece o que poderia ser o melhor retrato da temporada.

Helaena e o peso de uma morte apressada
A morte de Helaena é o soco no estômago do episódio. Mas, dramaticamente, o momento chega meio cru. A motivação (Mysaria avisando que ela será refém para sempre) é fina demais para justificar um gesto tão definitivo, ainda mais com a filha viva nas mãos de Rhaenyra.

A imagem do bordado premonitório é linda e será lembrada; só que ela acaba fazendo o trabalho emocional que o roteiro não fez. Faltou espaço para a cena respirar. O acerto absoluto é a reação de Rhaenyra: nenhuma. A frieza no rosto dela diante da janela diz mais sobre o que a coroa fez com essa mulher do que qualquer discurso de profecia.

Veredito

O final da 3ª temporada é tudo ao mesmo tempo: grandioso, brutal, lindo, comovente e um retrato em miniatura do problema de sempre da série. Ela tem em mãos todos os ingredientes de uma obra-prima e insiste em hesitar na hora H, ora abraçando a profecia que a atrapalha, ora suavizando a rainha que deveria assustar.

Mesmo assim, é o melhor que A Casa do Dragão já ofereceu e a temporada mais madura da franquia. Se a 4ª temporada tiver a coragem de largar a muleta e encarar de frente a tragédia política que sempre esteve ali, o final de 2028 pode ser inesquecível.

Nota: 8,5/10.

Todos os episódios da 3ª temporada de A Casa do Dragão estão disponíveis na HBO Max.

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