Cinema | Com Observatório do Cinema | 19/09/2026 07h00

Gandhari: Filme da Netflix transforma lenda indiana em vingança materna

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Uma mãe se vira por um instante numa estação de trem lotada. Quando olha de novo, a filha sumiu e, antes que ela consiga reagir, um golpe rouba dela algo a mais: a visão.

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É desse instante brutal que parte Gandhari, o novo filme de ação que estreou nesta quinta-feira (3 de setembro) no catálogo da Netflix.

A premissa: uma caçada no escuro

Bani, vivida por Taapsee Pannu, não é a heroína de ação de sempre. Ela tem a filha arrancada por uma rede de tráfico infantil no meio de uma estação e, no mesmo confronto, perde a visão.

Em vez de esperar pelas autoridades, decide investigar por conta própria, e é aí que o filme faz sua aposta mais ousada: a mãe conduz toda a caçada sem enxergar as pessoas que persegue.

O gênero costuma dar de bandeja essa vantagem à protagonista; aqui, ela é retirada logo na primeira meia hora. O que vem depois é uma imersão desorientadora na cidade fictícia de Joypurra, onde quase todo mundo parece esconder alguma coisa.

Gandhari
Por que o filme se chama Gandhari

O título não é enfeite. Gandhari é a rainha do Mahabharata (uma das histórias mais importantes da Índia antiga e é base para a religião hindu) que, por solidariedade ao marido cego, o rei Dhritarashtra, decide cobrir os próprios olhos com uma venda e viver o resto da vida sem enxergar, um gesto de devoção levado ao extremo.

O que Makhija e a roteirista Kanika Dhillon fazem é virar essa lenda do avesso: aqui a cegueira não é escolha devocional, é ferida imposta no pior momento possível, quando a maternidade está em jogo.

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A própria Dhillon já disse que quis reinterpretar a história para além do que todo mundo conhece. É essa releitura que separa Bani da “mãe vingativa genérica” de tantos filmes.

Joypurra e os Behrupiyas: a cidade das máscaras
Boa parte da atmosfera vem do cenário. Joypurra é uma cidade inventada, embalada por rituais, silêncios e por uma tradição indiana muito específica: os Behrupiyas, artistas do disfarce, mestres em assumir outras identidades.

A campanha da Netflix resume bem o clima: “uma mãe, uma filha e uma cidade de impostores”. Para uma investigação em que a protagonista não pode confiar no que vê, um lugar inteiro construído sobre disfarces é um achado de premissa.

Gandhari
Vale assistir?
Vou ser honesto: Gandhari é um filme de aposta, não de consenso. Parte pode gostar pela construção de Joypurra e a entrega de Taapsee, enquanto outra parte pode sentir que a premissa poderosa se perde no caminho e que o desfecho não faz jus ao que promete.

O que me faz recomendar mesmo assim é a ambição: usar o formato do filme de ação para revisitar um conto indiano clássico como lente sobre maternidade, sacrifício e vingança é uma jogada rara dentro do catálogo de gênero da Netflix.

Gandhari está disponível na Netflix.

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