Cinema | Com Observatório do Cinema | 03/10/2026 07h00

O Sorveteiro: Terror de Eli Roth desperdiça ideia divertida em filme sem impacto

Compartilhe:

Existe uma ideia de terror divertida no centro de O Sorveteiro. Eli Roth parte de uma imagem inocente, crianças correndo atrás de um caminhão de sorvete, e a transforma no início de um massacre. O problema é que uma premissa feita para provocar, divertir e incomodar acaba presa em um filme que raramente consegue causar qualquer uma dessas reações com força.

Publicidade

A história se passa em Bayleen Bay, cidade que parece saída de uma visão idealizada dos subúrbios americanos dos anos 1950. A aparência tranquila logo começa a mostrar rachaduras.

As crianças falam palavrões, a crueldade está presente nas relações e Jared (Charlie Zeltzer), o jovem protagonista, convive constantemente com a ameaça de bullying.

É nesse cenário que surge um misterioso sorveteiro interpretado por Ari Millen. Enquanto quase todas as crianças experimentam seus produtos, Jared fica de fora por ser intolerante à lactose. Naquela noite, o caminhão volta a circular pelas ruas e algo muda entre aqueles que comeram o sorvete.

As crianças começam a assassinar os próprios pais com a mesma animação de quem participa de uma brincadeira. No dia seguinte, estudantes aparecem na escola em um estado quase vazio, ainda com restos de sorvete no rosto. Jared e alguns colegas que não foram afetados percebem que precisam descobrir o que está acontecendo antes de também se tornarem vítimas.

O Sorveteiro tem violência, mas pouco terror

Roth trabalha há anos com a ideia de ultrapassar limites, e O Sorveteiro oferece um conceito perfeito para esse tipo de cinema.

Crianças assassinando pais e professores já representam uma quebra forte de expectativa. Colocar tudo isso em uma cidade aparentemente perfeita cria um contraste que poderia render tanto humor sombrio quanto imagens realmente perturbadoras.

Algumas cenas mostram o potencial dessa proposta.

As crianças tratam corpos e partes de suas vítimas como elementos de brincadeiras infantis, misturando inocência e violência de uma maneira desconfortável. Nesses momentos, o filme encontra exatamente o tipo de humor cruel que combina com sua premissa.

O problema é que essas ideias aparecem apenas de vez em quando. Roth não economiza sangue e mortes, mas quantidade não significa impacto. Grande parte da violência parece leve demais para uma história que deveria chocar.

Os assassinatos assumem um tom quase de desenho animado e raramente existe tensão antes deles. Em vez de temer o que pode acontecer, o público apenas espera pela próxima cena exagerada.

Essa falta de tensão prejudica principalmente a segunda metade. Quando a surpresa inicial desaparece, O Sorveteiro precisa encontrar algo além de sua premissa para manter o interesse. O roteiro, porém, não constrói personagens fortes o suficiente nem apresenta um mistério capaz de compensar a repetição das mortes.

LEIA TAMBÉM

Chad Powers - Crítica: 2ª temporada eleva o humor e mostra o melhor de Glen Powell
Séries

Chad Powers - Crítica: 2ª temporada eleva o humor e mostra o melhor de Glen Powell
Gandhari
Filmes

Gandhari: Filme da Netflix transforma lenda indiana em vingança materna

Referências ao terror expõem as limitações do filme
A dificuldade fica ainda mais evidente quando Roth faz referências diretas a clássicos como Os Pássaros, A Noite dos Mortos-Vivos e A Hora do Pesadelo.

As homenagens deveriam demonstrar carinho pelo gênero, mas acabam lembrando como outros cineastas conseguiram transformar ideias simples em experiências muito mais marcantes.

Charlie Zeltzer consegue sustentar Jared como o centro da história e oferece uma atuação convincente diante de tudo que acontece ao seu redor. O mesmo não pode ser dito sobre boa parte dos adultos, que recebem pouco desenvolvimento e raramente parecem pessoas pelas quais o espectador deveria se preocupar. Quando começam a morrer, falta uma ligação emocional capaz de tornar essas mortes importantes.

Ari Millen também sofre com as limitações do roteiro. Seu sorveteiro possui uma aparência inquietante e o sorriso constante cria inicialmente uma presença ameaçadora, mas o personagem permanece vazio por boa parte da história. O filme demora demais para dar algum peso ao responsável pelo caos que tomou a cidade.

Isso deixa O Sorveteiro dependente justamente das mortes, seu elemento mais irregular.

Se elas fossem mais inventivas ou provocassem uma reação mais forte, a falta de profundidade poderia fazer parte da proposta. Sem isso, o longa fica preso entre uma comédia de terror exagerada e uma tentativa de criar algo realmente perturbador, sem assumir completamente nenhum dos dois caminhos.

O desfecho consegue recuperar parte do interesse e apresenta uma ideia melhor do que boa parte do desenvolvimento anterior. Ainda assim, chega tarde para mudar a impressão de que havia um filme mais criativo escondido nessa premissa.

O Sorveteiro poderia ter usado sua mistura de infância, violência e humor sombrio para criar algo difícil de esquecer. Eli Roth tem uma ideia feita para provocar, mas entrega um terror que mostra muito e causa pouco.

Ao buscar inspiração em grandes clássicos do gênero sem alcançar a criatividade deles, o filme acaba destacando suas próprias limitações.

O Sorveteiro está em cartaz nos cinemas.

Nota: ★★½☆☆ 2,5/5

VEJA MAIS
Compartilhe:

PARCEIROS