Cinema | Com Observatório do Cinema | 04/08/2026 15h39

Os Assassinatos de Idaho: por que o assassino confesso quer voltar atrás agora

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Se você acabou de terminar Os Assassinatos de Idaho: Pesadelo Universitário, o novo documentário da Netflix, a série fecha com aquela sensação de ponto final: o assassino confessou, foi condenado e a justiça, enfim, saiu. Só que, na mesma semana da estreia, Bryan Kohberger, o tal assassino confesso, entrou com um pedido na Justiça para anular a própria confissão e reabrir tudo. Por que justo agora?

A vida real reabriu a ferid

O maior acerto de Pesadelo Universitário é onde a câmera aponta: para as vítimas, não para o culpado. Madison Mogen, Kaylee Goncalves, Xana Kernodle e Ethan Chapin voltam a ser gente de verdade (planos, amizades, vídeos caseiros) e não só quatro nomes colados a um crime famoso. Os três episódios são construídos em cima de uma ideia de encerramento: o assassino confessou, pegou quatro perpétuas, acabou.

É exatamente esse desfecho que Kohberger está tentando desmontar bem agora, no momento em que milhões de pessoas assistem justo à versão em que ele é o culpado assumido.

Tem uma ironia aí: parte do material inédito que dá força ao documentário (imagens de câmeras corporais da polícia, registros da investigação) só veio a público depois que ele se declarou culpado e a mordaça judicial caiu. Ou seja, a série só existe do jeito que existe por causa da confissão que ele agora quer apagar.

O que ele protocolou
Kohberger, hoje com 31 anos, cumpre quatro penas de prisão perpétua consecutivas, sem direito a condicional, pelos assassinatos cometidos na madrugada de 13 de novembro de 2022, numa casa alugada perto do campus, na cidadezinha de Moscow, Idaho. Em julho de 2025, ele fechou um acordo: se declarou culpado de quatro homicídios em primeiro grau e um crime de invasão, e escapou da pena de morte.

O caso parecia fechado, inclusive na série. Mas, segundo a CNN e a ABC News, na segunda-feira ele mesmo redigiu à mão uma petição de “revisão pós-condenação” e a protocolou no tribunal do condado de Ada. Em bom português: ele quer apagar a confissão e ter o julgamento que ele próprio evitou. E está tocando o processo sozinho, sem advogado.

Por que justamente agora?
Aqui está o que a manchete não conta. Não é um lampejo de consciência: é relógio. Pela lei de Idaho, quem quer pedir esse tipo de revisão tem uma janela de cerca de um ano, e a dele fecha na primeira semana de setembro de 2026. Ou ele agia agora, ou perdia a chance de vez.

Some a isso um detalhe do acordo: ao aceitá-lo, Kohberger renunciou ao direito de recorrer da sentença. Sem esse caminho, a revisão pós-condenação virou a única saída que ainda estava destrancada.

Filmes e séries em que a Netflix tentou humanizar um criminoso
Então o “agora” é bem menos sobre coragem e bem mais sobre um cronômetro chegando ao fim, enquanto a estreia do documentário e a repercussão na imprensa apenas engrossaram o barulho ao redor.

O que Kohberger alega

No documento, ele afirma ter tido uma “assistência jurídica ineficaz” e diz que foi convencido a fazer uma confissão falsa. A tese central é que a defesa não teria revisado provas capazes de inocentá-lo e o pressionou a aceitar o acordo com promessas que não foram cumpridas, além de pintar um retrato assustador da vida no corredor da morte, supostamente para empurrá-lo ao acerto.

Em paralelo, Kohberger deu uma declaração ao The New York Times, enviada pela família, na qual se diz inocente e classifica a versão das autoridades como uma obra de ficção. É a primeira vez que ele fala publicamente em não ter feito nada, depois de ter afirmado, sob juramento e diante do juiz, exatamente o contrário.

Ele tem chance real?

Pouca, e os especialistas ouvidos pela imprensa americana não escondem isso. Depois da sentença aplicada, a lei de Idaho só permite desfazer uma confissão em caso de “injustiça manifesta”, um padrão altíssimo. Na prática, Kohberger teria que convencer um juiz de que assinou o acordo sem entender o que fazia, sem liberdade real de escolha ou diante de um erro grave e concreto no processo.

O problema é que, na audiência de mudança de declaração, ele respondeu por escrito e em voz alta que agia de forma voluntária, que ninguém tinha feito promessas escondidas e que se declarava culpado por ser culpado. Derrubar as próprias palavras ditas em juramento, com quatro advogados ao lado, exige prova pesada, não basta afirmar. Analistas jurídicos resumem tudo como uma subida íngreme.

Vale rever a série sabendo disso?
Vale, e talvez até renda mais. Assistir Pesadelo Universitário agora tem uma camada a mais: você sabe que o “fim” que a série entrega está, neste exato momento, sendo contestado pelo próprio homem que confessou.

Se você quer nossa leitura completa da produção antes de encarar essa reviravolta, dá uma olhada na nossa crítica de Os Assassinatos de Idaho: Pesadelo Universitário. O documentário fez o dever de casa; a Justiça é que ainda não bateu o martelo final.

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